Hiperatividade

HIPERATIVIDADE: Diagnóstico ou Sintoma?

“Receio que não haja crianças hiperativas mas adultos com défices de atenção.” Eduardo Sá, Revista Pais & Filhos 

As opiniões dividem-se! Enquanto uns fazem uma abordagem puramente biológica – como é o caso dos Estados Unidos, onde a taxa de incidência de TDAH (Transtorno do Défice de Atenção com Hiperatividade), ronda os 9% da população infantil em idade escolar -, outros adotam uma perspetiva psico-social, compreendendo a questão à luz de problemáticas situacionais – sendo exemplo disso a França, em que os diagnósticos são inferiores a 0,5%.

A hiperatividade por si só não encerra um diagnóstico, mas é antes um sintoma. E pode ser um sintoma de variadíssimas questões:

  1. Simplesmente ser criança: as crianças mexem, pulam, gritam, brincam, correm, cansam quem observa de tanta atividade, mas não se cansam. Não são adultos, são mesmo assim: CRIANÇAS! Saudavelmente, crianças!

Quando, ainda assim, parece ser uma agitação excessiva, a lista pode continuar:

  1. Excesso de atividades: Pode acontecer que a agenda semanal da criança está tão sobrecarregada de atividades, que a própria criança entra num ritmo de agitação provocado por não ter mais momentos de puro lazer e descontração. Por muito atrativas e apreciadas que as atividades sejam, é importante priorizar algumas para que a semana não seja vivida num corrupio de horas de entrada e saída do que quer que seja.
  2. A hiperatividade também surge no registo do chamado “fuga para a frente”, isto é, a criança que não está bem por alguma razão e age muito para não pensar. É o sentir que “não posso parar”. Às vezes até chegam a conseguir relatar que não conseguem parar (o que também dá indícios sobre o mal estar).

Naturalmente que uma criança mais “agida”, terá mais dificuldade em concentrar-se. Especialmente se a agitação estiver relacionada com algum desconforto. Nesse caso terá outros indícios, como não conseguir ver um filme completo (quando pela idade isso é já esperado); mudam rapidamente de brincadeira e de brinquedo, como se se cansassem facilmente do que têm; dormem pouco; parecem compreender as regras, mas habitualmente não as cumprem, etc.

Ponderando o cenário acima descrito, e percebendo que a hiperatividade por ser significado de um mal-estar associado, como será possível a concentração? Utilizando uma expressão popular, se a criança “ está tão preocupada com os seus botões”, e canalizando a sua energia para a ação, como sobrará para estar atenta? Percebe-se, assim, a habitual relação feita entre os dois sintomas: Hiperatividade e Défice de Atenção.

Todos nós sabemos que, ao tomar um analgésico, a razão da dor não desaparece. O que é eliminado é simplesmente o sintoma. Acontece, então, que o problema subsiste, só anulamos o sintoma que dá expressão a esse problema. Exemplo: um analgésico elimina uma dor de cabeça, mas (imaginando que essa é uma dor provocada por falta de visão) não corrige a questão oftálmica – atua somente no sintoma, não na raiz do problema. Precisamente o que se passa com a medicação aplicada à Hiperativade e/ou ao Défice de Atenção.

Atualmente, os diagnósticos de TDAH somam-se e multiplicam-se a uma velocidade preocupante e as crianças, adicionalmente ao rótulo, recebem medicação para anular a agitação e garantir a concentração. Resolve o problema? Não! Quando param a medicação, mantêm o mesmo padrão de comportamento – a medicação age exclusivamente sobre o momento da toma e sobre o comportamento (sintoma). Não age no que origina o comportamento hiperativo e a dificuldade de concentração. Conseguem melhores resultados escolares? Sim! Enquanto tomam o medicamento, os níveis de atenção são aumentados, o que garante maior segurança no sucesso escolar. Isso justifica que se medique sem compreender o que está na base do desenvolvimento de um comportamento menos adequado? Discordo, em absoluto!

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