ANSIEDADE

ANSIEDADE

Hoje escrevo sobre ti

Hoje escrevo sobre ti

Hoje quis mesmo escrever sobre ti, sobre o orgulho que tenho pela caminhada que fizeste, pela enorme admiração que mesmo nos momentos mais difíceis sempre tive por ti, pela forma como me encanta ouvir-te falar e acima de tudo pela pessoa que és!!!

Faz dois anos que entrou no meu consultório, uma jovem de 16 anos, que utilizava a franja para que eu não pudesse focar os seus olhos desconfiados, mas com muita necessidade de falar. Apesar da queixa base apresentada pela mãe, muito preocupada com os sintomas de isolamento, agressividade, baixa autoestima e ainda alguns episódios de automutilação, para ela a sua principal preocupação centrava-se na sua ansiedade, que considerava ser um dos principais fatores que interferia na sua qualidade de vida, nos seus relacionamentos interpessoais e no cumprimento das suas tarefas, nomeadamente as escolares.

Na verdade a sua vida estava totalmente virada do avesso e ela estava a ser “engolida” pela sua ansiedade, pelo medo que a vida lhe tinha literalmente cristalizado em todas as células do seu corpo….

Precisava de aprender a confiar, a relaxar, a amar e a deixar-se ser amada, para poder pouco a pouco ir-se libertando das amarras do medo e mudando as lentes com que via a vida. Vivia em permanente estado de sobressalto, de tensão e evidenciava todos, ou quase todos, os sintomas físicos decorrentes da ansiedade.

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Criamos uma empatia quase imediata no decorrer da primeira consulta e o caminho para a possibilidade de estabelecermos um vínculo forte e curador entre nós estava aberto.

Na verdade, para lá de todas técnicas, hoje só acredito no vínculo! Essa relação de coração para coração, na qual não é a minha boca ou a minha cabeça que fala, não são os meus músculos que se movimentam, não são apenas os olhos que focam, são realmente aqueles dois corações que se abrem e decidem percorrer aquela caminhada juntos, envoltos por uma aura regeneradora e curadora.

Infelizmente, nem sempre acontece conseguirmos estabelecer essa ligação próxima e verdadeira com todos os pacientes e claramente a terapia fica comprometida.

Não foi o caso e ainda bem!

Apesar deste ano letivo não ter sido tão bem sucedido como o anterior, no qual para espanto de todos, inclusive da própria, as suas notas foram excelentes, conseguiu encontrar sentido, interesse e propósito para a vida. Na verdade isso é mesmo o mais importante, porque sem sentido a vida não pode ser vivida e o esforço de realização é tão grande que sempre resvala em qualquer momento….

A terapia desenvolveu-se a partir do fio de energia que ainda lhe restava.

Foi devagar que fomos aumentando a sua esperança, vitalidade, prazer, gosto por si própria e pela vida!

Foi devagar que foi aprendendo a gerir a sua pouca energia vital, quase sempre utilizada apenas para agradar os outros, colocando o seu corpo num estado de colapso e a família quase sempre em posição de não receber nada, pois no final do dia, já nada tinha para dar!

Foi devagar que pode começar a sentir-se aceite e amada pelos outros!

O que não foi nada devagar foi a minha admiração, respeito e afeição! A sua honestidade e seriedade intelectual sempre me encantaram, bem como a sua capacidade de Amar e de se preocupar com os outros à sua volta…

Ainda me lembro que na nossa segunda consulta me disse que para ela tinha sido até bastante bom ter podido falar sobre a sua vida, mas que tinha ficado um pouco preocupada se para mim não tinha sido uma “seca”…

Obrigada por me teres dado o privilégio de conviver com alguém como tu!

imagem@becuo.com

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