Sopro Cardíaco na Criança | “Sopro no Coração””

Sopro cardíaco é uma manifestação sonora, audível, de um acontecimento mecânico que se passa dentro do coração ou dos vasos sanguíneos.
O coração é sobretudo um motor, onde circula um líquido que é o sangue.
Os motores em geral, são constituídos por peças, válvulas, tubos, cilindros, constituintes estes que quando em movimento geram sons.
Muitos destes sons identificamos desde crianças… o motor do automóvel, da mota, da máquina de lavar, da máquina de barbear do pai …
O coração, digamos que, é um motor a 2 tempos.
E faz o clássico: (pum, pum) … (pum,pum) … (pum,pum)…
O primeiro tempo é a admissão do sangue no coração, que quando acaba gera o “primeiro pum” (encerram as válvulas de admissão); o “segundo pum” corresponde ao fim do segundo tempo, a expulsão do sangue para a circulação (encerram as válvulas de saída).

Outro elemento que no coração pode gerar sons, é o próprio sangue em movimento.
Ora, assim como em uma máquina de lavar louça a trabalhar podemos perceber dois tipos de sons, o do motor propriamente dito, e o da água que circula, também no coração, além do som das válvulas, de que já falámos, se pode ouvir o sangue a passar, sobretudo na fase de esvaziamento, em que o sangue sai do coração com alguma velocidade.
Em geral as pessoas não ouvem o seu coração a trabalhar.
Para ouvir melhor é preciso amplificar os sons, como faz o médico com o estetoscópio.

Bom, mas afinal o que é que origina um sopro cardíaco?
A primeira noção a reter e que já foi dita, é que qualquer motor ou líquido em movimento, causa sons.
Se esse som é harmonioso, suave, mesmo musical, estamos, em presença, por exemplo, de um relógio suiço, de um motor BMW 5 novinho em folha, de um ribeiro de água cristalina na serra do Gerês, ou duma criança saudável com um sopro chamado de inocente…
Felizmente, em cada 100 crianças com sopro cardíaco, 99 tem um um sopro deste tipo.
O termo sopro não é o mais adequado talvez, mas é o que mais faz lembrar os sons que o coração emite, principalmente nos tais 1% de crianças que têm mesmo doença no coração.

Os Avós ficam quase sempre assustados quando o seu neto “tem um sopro” … e transmitem aos filhos, uma realidade sua, a de existirem há 50/70 anos atrás, muitas crianças com doenças cardíacas, à custa sobretudo de febre reumática, que felizmente, quase não existe já entre nós.
Por outro lado, dantes um sopro tornava-se num mistério que acompanhava a criança até mesmo ser adulto.
Hoje, com a tecnologia moderna, principalmente a ecocardiografia com Doppler a cores, rápidamente tudo se esclarece.

Um sopro numa criança saudável, é isso mesmo, mais um sinal de saúde.
A criança transpira energia, pula o dia todo, corre de alegria, só pára para dormir, e tem um sopro no coração…
Tem que ter um sopro! Como a criança é um todo, esta energia exige um coração forte e alegre!
A estes sopros chama-se sopros inocentes.
No dia-a-dia com os pais, eu prefiro chamar-lhes uma música (sopro musical) uma vibração (sopro vibratório), termos mais simpáticos e que não fogem à verdade…
A causa destes “sopros inocentes” são condições normais do desenvolvimento da criança:
– O coração está mais perto da parede do tórax: ouve-se tudo o que se passa lá dentro …
– Há no coração das crianças, uma maneira de crescer e estruturas próprias da idade (que infelizmente se esbatem com os anos …) e que, como a água num riacho que se alarga e aperta, desce e sobe, fazem com que o sangue emita sons ou vibrações agradáveis, quando passa por elas.
– Na criança pelos 2 , 3 anos, só o facto de ir ao médico as assusta e faz aumentar toda a energia com que o coração trabalha. A febre também tem o mesmo efeito e faz aumentar os sopros.
Os pediatras muita vezes não ligam a estes sopros, porque sabem que na criança é normal existirem… e é por vezes é outro médico que fala aos Pais no sopro…
Outra noção a reter, é que, se um sopro inocente é sinal de saúde, energia e juventude no coração, é bom que não se fique à espera que ele desapareça…
O tempo não perdoa, e num ápice os nossos filhos já não são jovens, e nós, ainda menos…

Há um grupo etário em que os sopros inocentes tem um significado um pouco diferente, são os recém-nascidos. Nesta idade trata-se mais de uma adaptação da circulação, que é diferente dentro do útero e depois de nascer. Muitas vezes, só pelos 6 meses está tudo estabilizado. De qualquer modo, para o bebé, isto passa-lhe ao lado pois são adaptações naturais.
No entanto, os recém-nascidos não deixam de ser um grupo mais sensível, sobretudo em termos de urgência, pois por vezes não é fácil para o médico distinguir adaptação circulatória habitual de doença cardio-circulatória.

Conclusão:
Quando o médico do bebé ausculta um sopro, por vezes pede a opinião de um especialista.
Eu recomendo sempre que a avaliação seja feita numa consulta de cardiologia pediátrica, em que o médico fala calmamente com os Pais, consulta o Boletim de Saúde, observa a criança, e,
(o mesmo médico) faz os exames complementares que achar necessários, em particular um ecocardiograma com Doppler a cores.
Isto não tem outro sentido senão o de se fazer a abordagem diagnóstica segura, com resultados mais fiáveis.
Não vale porém a pena para tanto stress por parte dos Pais, nem tanta urgência nestas consultas…
Senão, veja o seguinte “fluxograma”:
1 – A sua gravidez foi vigiada?
                         “Sim, e correu tudo bem.”
2 – Fez ecografias morfológicas?
(eventualmente até fez ecocardiograma fetal !)
                         “Sim, e estava tudo bem.”
3 – O bebé nasceu numa maternidade e fez uma avaliação médica antes da alta?
                          “Sim … e estava tudo bem.”
4 – Já foi ao pediatra alguma vez?
“Sim … e estava tudo bem.”

OK, OK, 99,9% de probalidade de o seu filho ter um coração excelente …

5 – Foi o pediatra habitual que lhe auscultou o sopro?
“Sim … mas só ao fim de 3 anos é que ouviu …”
(Volte à alínea 4…)
6 – “Não, foi um médico na urgência quando tinha febre…”
Há doenças graves que podem afectar o coração na criança.
Mas, se o seu filho é saudável, só tem daquelas doenças
esporádicas e transitórias, que lhe pegou o irmão ou apanhou
na creche, então descanse …
(Volte à alínea 4…)

Por fim, se o médico pediu mesmo uma avaliação por um especialista de coração de crianças, é melhor marcar consulta, mas “sem stress nem pressas”   🙂

Por António J. Macedo, Médico Cardiologista Pediátrico, publicado originalmente no Blog Meu pequenino Coração,
Auitorizado para  Up To Lisbon Kids®

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imagem de capa@rsaude

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