Ser mãe solteira, não me impede de nada, dá-me mais força

Ser mãe solteira, não me impede de nada, dá-me mais força

Eu cresci a sonhar acordada.

Para dizer a verdade, em criança sonhava que seria uma Rock Star. Depois estrela de cinema prestes a receber um Oscar. Cheguei a abrir com uma amiga, no salão de cabeleireiro da mãe dela, um escritório de advogados. Quando falamos sobre que tipo de casos iríamos aceitar chegamos à conclusão de que Divórcio era o nosso limite! “Há muita coisa envolvida!” – dizíamos.

Mais tarde tentamos abrir no quintal do mesmo salão, uma fábrica de pensos higiénicos. Para tal achamos boa ideia perceber como eram feitos. Roubamos os pensos higiénicos e testamos com as ampolas para as mises, daquelas que tornavam os cabelos das senhoras azuis.

Lembram-se? Já não se vê muitas senhoras com um cabelo azul, pois não? Podem imaginar o que aconteceu quando as nossas mães descobriram que as senhoras ficariam sem ampolas azuis pelo menos durante quase 15 dias!

Pois, mas isso não me impediu de continuar a sonhar.

Na adolescência foi o descalabro de sonhos uns atrás dos outros: atriz, astronauta, médica, cientista, dona de hotel de charme – isto muito antes do boom dos hotéis de charme.

As minhas afirmações na altura limitavam-se a ’eu vou conseguir’. Como e quando, isso eu não sabia.

Queria ser tudo, e viver tudo.

Mas naquela idade, acho que é normal porque achamos que somos eternos e vamos ter tempo para tudo. Ou que a vida é curta e há que viver tudo ao mesmo tempo. Depois há o facto de que na adolescência nunca nos sentirmos completamente integrados porque falta sempre algo. Faz parte. No filme  A vida Secretade Walter Mitty há o exagero, de se ficar tão imerso nos sonhos que não se vê nem ouve ninguém enquanto ‘viaja’. Posso admitir que também já me aconteceu. Dependendo da fase da minha vida, maior ou menor é a intensidade do sonho.

Lembro-me quando a minha filha tinha 3 anos.

Eu estava numa fase profissional péssima. Tecnicamente falida sem prospeção de trabalho, mãe solteira e a viver em casa dos meus pais. Tive de começar a trabalhar num Call Center. Desmotivada, inscrevi-me e lá fui chamada uns dias depois para uma formação. No primeiro dia, senti um nó do estômago. Não era para ‘aquilo’ que os meus pais tinham investido tanto na minha educação fora do país.

Conhecem esta ladainha?

Eu senti inclusive vergonha como se estivesse a fazer algo sem valor. Como eu estava enganada. Logo nesse primeiro dia, vi que os meus colegas eram quase todos um pouco mais novos, mas todos formados e alguns com carreiras de sucesso na carteira. Todos, sem exceção sentiam o mesmo.

Não nos podemos deixar definir pelas armadilhas que a vida nos vai pregando.

Durante os quinze dias de formação, formamos um grupo bastante animado, brincámos com a nossa situação e as nossas figuras ao tentar atender clientes após termos sido aceites para integrarmos as equipas. Graças à genuína forma de ser dos meus colegas, os dias foram bastantes aprazíveis dentro daqueles pequenos cubículos. Para mim, percebi mais tarde que o importante era estar em movimento a fazer alguma coisa, e principalmente providenciar para a minha filha.

O resto viria, mas o importante era nunca desistir.

Na altura não tinha carro e vivia a cerca de 12 quilómetros do meu local de trabalho. Decidi começar todos os dias fazer a caminhada a pé enquanto usava o mp3, um presente de uma amiga que me dizia ‘tens de ouvir música pelo menos uma vez por dia. Ajuda a relaxar!’. Ouvi este conselho e segui-o, sem saber caminhar aqueles quilómetros a ouvir música me iria impulsionar a sonhar. A pensar no que queria fazer de verdade. No que eu acreditava estar destinada a fazer ou como é que eu me imaginava no futuro.

Houve muitos momentos que quase desisti, outros voltei a ter esperança.

As minhas afirmações na altura limitavam-se a ’eu vou conseguir’. Como e quando, isso eu não sabia. Mas se a Fé me tinha ajudado em alturas tão duras, como quando a minha mãe adoeceu e infelizmente partiu, nesta fase eram favas contadas.

Mas conseguiria, eu atingir os meus objectivos?

Trabalhar para as Nações Unidas e outras ONGs em países subdesenvolvidos, que era o meu sonho, parecia completamente inalcançável não só porque sim, mas principalmente porque era mãe solteira de uma menina pequenina.

Houve muitos momentos que quase desisti, outros voltei a ter esperança.

Quando o quotidiano nos confronta com a realidade, é quando temos de agir. E eu, como mãe solteira, não estava a pensar só em mim.

No entanto, é precisamente nestas alturas, que os conselhos muitas vezes não requisitados nos atingem com negatividade. Depois do Call Center ainda trabalhei para a uma ONG Portuguesa, para um Jornal de referência Português, e ainda tentei ser imigrante (onde falhei redondamente!). Quando estava quase a desistir fui chamada para a minha primeira oportunidade de trabalho que tanto queria e com a organização que queria mas com um pequenino senão: era no Afeganistão!

Conseguem acreditar?

Quando recebi a chamada de sonho, nem me lembrava que tinha concorrido, tal era o meu estado de espírito. Aparentemente estavam a tentar ligar-me pelo menos há dois dias quando finalmente conseguiram ‘apanhar-me’, isto porque alguém desistira.

Foi a minha grande oportunidade.

Graças à minha família, porque ninguém é uma ilha, lá fui eu.

Acreditem, não sei se foi o meu estado de euforia e gratidão misturado com felicidade mas tive uma missão linda. Sim, no Afeganistão! Conheci um povo maravilhoso, colegas com quem aprendi imenso e pessoas que admiro sem fim com quem continuo a trabalhar ocasionalmente. 

A aprendizagem foi continua. Não nos podemos deixar definir pelas armadilhas que a vida nos vai pregando. O meu sonho continua, ainda não estou onde quero. Estou mais perto, mas a caminhada ainda agora começou.

Ser mãe solteira, não me impede de nada, dá-me mais força.

Quero que a minha filha olhe para mim e veja alguém que, independentemente da idade, do estado civil, e financeiro sonha e luta porque sabe que tudo é possível, tudo. Não podemos moldar a próxima geração baseada na crise atual. Mas podemos dar-lhes ferramentas para serem independentes enquanto sonham e lutam pelos seus objetivos.

Isto é muito diferente de enterrarmos os seus sonhos, simplesmente porque ao longo do caminho houve e haverá sempre alguém  a dizer ‘Não é possível.’  

Só não se esqueçam que sonhar é bom, mas viver é muito melhor. Aproveitem.

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