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Parentalidade

Que raio de mãe és tu?

– “Mas que raio de mãe deixa o miúdo andar ali?”

Que raio de mãe és tu?

Fomos dar um passeio à zona ribeirinha.

Ao chegarmos, a maré baixa convidou-nos a descer as escadas e a sentarmo-nos numa pedra junto à água. Apanhámos búzios, vimos caranguejos e percebemos que havia zonas de lodo e zonas mais secas por onde poderíamos facilmente andar. O Manel continuou a explorar, encantado com a vida a fervilhar na ria, no lodo, nas algas deixadas pela última preia mar.

Numa das investidas, escorregou e encheu-se de lodo. Correu a mostrar-mo, demos uma boa gargalhada juntos e pediu-me para continuar a descobrir mais um pouco.
Enquanto o observava, deliciosamente parte daquele lugar, ouvi a seguinte frase ao longe,

– “Mas que raio de mãe deixa o miúdo andar ali?”

Duas senhoras, muito bem postas, vestidas com o fato de treino dos domingos e uns ténis muito branquinhos que nunca conheceram senão a brandura do asfalto, a suplicar (sem disso saber) por um bocadinho de vento ou de mar que lhes devolvesse a vida outra vez.

Foi isto que pensei, depois de uns segundos de raiva que quase me saltava da boca sob a forma de um “Não sabem as senhoras aquilo que perdem!”

Não o disse, mas vim com a frase a ecoar-me na cabeça e a fazer-me pensar no assunto, não sem antes me ter obrigado a mastigar e a cuspir a ideia que tantas vezes assalta as mulheres: Terei sido eu uma má mãe?

Olhei para o meu filho e tudo o que vi foi um puto feliz, coberto de lodo da cabeça ao pés e a voltar para casa sem sapatos mas com o coração cheio de aventura e de liberdade.

Esta experiência levou-me a pensar naquilo em que transformámos a infância a partir do momento em que nos esquecemos de que a infância se faz de descoberta, de mãos na massa, de experiências, de espaço livre, de consciência de corpo nesse mesmo espaço.

A infância faz-se de risco.

E eu entristeço-me vezes demais, sempre que ao lado das senhoras bem postas vestidas com o fato de treino dos domingos, vejo crianças bem postas de fato de treino igual, a desconhecer que o corpo com que se movem é capaz de coisas tão extraordinárias como subir às árvores, saltar de pedra em pedra, apanhar caranguejos ou correr descalço.

Estamos mesmo a “criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável”, como disse um dia o fabuloso Carlos Neto. E a culpa é toda nossa.

Morremos de medo de que se magoem, morremos de medo de que se enganem, morremos de medo de que os magoem, e por fim, morremos de medo de que não precisem de nós.

Tudo isto faz parte do processo, até porque desde o momento em que lhes pusemos a vista em cima, deixámos de pertencer a nós mesmos e assumimos como nossa, a missão de os proteger para sempre. Tudo isto faz parte do processo mas é nossa a responsabilidade de não permitir que isto interfira com a sua saúde física e mental.

O medo dos adultos

O medo dos adultos é talvez a maior barreira à autonomia de uma criança e uma verdadeira ameaça ao desenvolvimento de uma maior confiança em si e no meio envolvente. E os adultos de hoje são exímios nisto. Vivem presos a uma proteção excessiva e a um desejo mal disfarçado de crianças arrumadinhas, bem comportadas e muito limpinhas, que em tudo as distancia do potencial com que foram equipadas.

A curiosidade, a criatividade, a coragem, o sentido de deslumbramento são as ferramentas com que as crianças nascem para que possam, sabiamente, descobrir o mundo. E é precisamente esta descoberta que lhes permite conquistar uma crescente percepção sensorial e as competências de vida que um dia lhes permitirão crescer como adultos capazes, resilientes e autónomos.

A maioria das vezes em que impedimos os nossos filhos de explorar ou experimentar não representa perigo à sua saúde.

“Cuidado que vais cair”

São os inocentes “cuidado que vais cair!”, ou os bem intencionados “não vás para aí que te vais sujar!” que, repetidos vezes a fio sem que deles tenhamos consciência, vão retirando à criança a capacidade de conhecer o seu corpo e os seus limites, de aprender a observar os contextos onde se move e a fazer ela própria a avaliação dos riscos com que se depara, adaptando-se, do ponto de vista motor e emocional, aos diferentes desafios. E isto tem um efeito precisamente contrário ao que pretendemos: torna as crianças mais desajeitadas, mais propensas a acidentes e menos capazes de se auto regular.

Crianças assustadas, pouco confiantes, progressivamente menos criativas, emocionalmente pouco seguras e com maior probabilidade de psicopatologia na idade adulta, é tão somente o cenário que estamos habilmente a construir e eu sei, que não é nada disto que desejamos, tão somente porque é em tudo contrário à promessa que firmámos em nós quando lhes pusemos a vista em cima.

As crianças precisam de crescer inteira e saudável

E é por tudo isto e por saber, enquanto adulta e enquanto mãe, que é minha a responsabilidade de permitir ao meu filho crescer de uma forma inteira, saudável, emocionante e progressivamente mais autónoma, que eu agora já só queria que fôssemos muitos a borrifar-nos nos ténis branquinhos e a abrir caminho ao lodo, à terra, aos bichos, às árvores e a tudo o que de forma tão natural e tão fácil lhes é casa.

É isso afinal que lhes constituirá terreno fértil para construir e adubo bom para fazer crescer as sementinhas de tudo o que de tão incrível já trazem dentro.

E se assim isto te fizer sentido e se com isto alguém um dia te perguntar que raio de mãe és tu, sorri-lhe e responde-lhe que és um raio de uma mãe que ainda não se esqueceu do sabor que a liberdade tem…

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Diy Up News

Covid 19 – Cápsula do tempo Gratuita para miúdos, graúdos e grávidas

Covid 19 – Cápsula do tempo Gratuita para miúdos, graúdos e grávidas

Esta é uma cápsula do tempo em formato caderno diário para preencher com tudo o que vamos querer saber no futuro sobre esta época. É um projeto criado pela Natalie Long of LONG Creations para os seus filhos, com o intuito de disponibilizar para o mundo inteiro gratuitamente.

“Estamos todos a viver a história.  Desde o  inicio da pandemia que disse que queria fazer uma coisa que deixasse uma marca no presente, para no futuro olharmos para o passado e termos registos das coisas.  Guardei jornais e trabalhos manuais feitos pelos meus filhos, tirei fotos aos nossos dias e mantive um diário. MAS também tenho trabalhado num caderno diário para preencher, uma “cápsula do tempo” muito especial para os meus filhos preencherem comigo. Isso estará disponível como um recurso GRATUITO para quem quiser “

É dos cadernos mais interessantes que já vi: as crianças ao preencher estão a criar uma cápsula de tempo numa altura de pandemia. O caderno permite que se registe tudo sobre esta época e dá dicas muito simples para as crianças preencherem e reverem no futuro. 

Por enquanto não existe uma versão em portugês, mas fica a versão inglesa para crianças. 

Se gostarem, também há uma versão para adultos (não como estão a pensar… é apenas uma versão mais detalhada), e ainda uma versão para grávidas que é uma delícia.

Para se tornar uma cápsula mais completa, Nathalie criou ainda uma série de páginas dedicadas às datas especiais. Descarregue aqui.

Os meus animais de estimação

O meu novo animal de estimação

Um dia memorável

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Regresso à escola após confinamento

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Para os finalistas deste ano

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Pais em tempos covid

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Educação Parentalidade

Faz o que eu digo, não faças o que eu faço!

Faz o que eu digo, não faças o que eu faço!

Muitos de nós crescemos a ouvir a frase “faz o que eu digo, não faças o que eu faço!“.

Acontece que este lema face a uma criança pequena não resulta. A criança é um orgão sensório que através dos seus sentidos absorve os gestos, o fazer, o movimento, o ambiente ao seu redor.

Os pais devem educar através do exemplo

Quantas vezes nos deparamos com as crianças na sua brincadeira livre a imitarem-nos? A serem o nosso espelho? Elas estão na fase de pura imitação. Isso significa que nós somos o exemplo. Quer seja em casa ou no Jardim de Infância, o adulto tem um papel preponderante e logo de extrema responsabilidade. Na verdade, temos a responsabilidade de ser um exemplo digno de imitação.

Claro que as palavras existem e que com elas também comunicamos com as crianças. Contudo, devemos optar por palavras e mensagens claras, verdadeiras e com sentido. Assim, a criança consegue crescer confiante que o mundo é BOM.

Não se verbaliza mas se na verdade queremos ser o exemplo, queremos que elas façam o que fazemos e não o que dizemos.

Muitas coisas que falamos, para uma criança pequena, cai em saco roto. Pois estamos a intelectualizar o que poderia ser um gesto, um movimento. Se nós adultos pensarmos sobre uma situação específica em que a criança não faz o que dizemos, podemos chegar à conclusão que nós, possivelmente, enquanto adultos também não damos esse exemplo. Ou a situação contrária, quando por exemplo dizemos à criança que não pode ver mais televisão ou jogar mais um jogo de playstation e nós passamos o dia em frente à TV ou em trabalho Online. Por vezes entramos em contra-senso e isso traz confusão para a criança.

A minha filha mais nova, durante o meu trabalho em tempo de isolamento, todo ele através de reuniões no computador, chega ao pé de mim com um pedaço de cartão dobrado e algumas letras e caras desenhadas e diz-me: “Vês mãe? Também estou numa reunião”. Com certeza quem evita todo o tipo de tecnologia vê os filhos reproduzirem outras brincadeiras.

Metodologia Waldorf – Faz o que eu digo, não faças o que eu faço!

No Jardim de Infância Waldorf damos muita importância ao fazer, principalmente actividades artísticas e de cuidar a casa. Assim a criança também ganha a percepção de que por exemplo aquela alface que ela está a comer foi plantada, regada, colhida, lavada e temperada e que ela teve a felicidade de participar de todo este processo. Seria bem diferente se lhe disséssemos qual tinha sido o caminho da alface até chegar à nossa mesa. Agora não é só uma alface é amor em forma de alimento.

Acima de tudo, as coisas (sejam elas palavras ou ações) devem fazer sentido.

Quantas vezes ouvi Educadores pedirem às crianças para falarem mais baixo… aos gritos!? (De outra forma não me ouvem diziam). Quantas vezes experimentámos tocar um jogo de sinos, sussurrar alguma coisa ou até mesmo começar uma canção e as crianças começam a seguir-nos com o olhar e depois vão-se aproximando?

Acredito que temos que ver as coisas na perspectiva do Amor, que a criança pequena precisa um ambiente digno de ser imitado e de adultos calorosos (o que não significa que não coloquem limites quando necessário).

O adulto, seja ele pai, mãe ou educador terá de fazer um caminho bem responsável e atento à sua Auto-Educação. Melhorando-nos, superando-nos.

Ninguém pode dizer que é um caminho fácil ou até mesmo que nunca errou. Mas errar é crescer e dar-nos a oportunidade de fazer sempre melhor.

Faz o que eu faço!

 

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Segurança

5 conselhos para que as crianças naveguem em segurança na internet

5 conselhos para que as crianças naveguem em segurança na internet

Não há dúvidas que as crianças de hoje em dia são as mais “digitais” que nunca, e é quase impossível mantê-las afastadas do computador. Os perigos da rede aumentam ao mesmo tempo que esta cresce, e é muito importante que os pais estejam conscientes da necessidade de uma navegação segura.

Para facilitar-lhe a vida, deixamos 5 conselhos que os ajudará minimizar riscos através de uma navegação segura na internet.

1. Computador sempre na sala de estar

Este é um dos melhores conselhos que existem, e dos mais efetivos também. A ideia é que os pais possam ver o ecrã do computador (não significa ler o que o seu filho estiver a ver) enquanto estão no sofá. É uma das medidas de segurança mais efetivas que existem, já que é um “travão” para muitas práticas de risco na internet: uso de webcam com desconhecidos, transferência de software pouco fiável ou perigoso entre muitas outras coisas.

2. Crie usuários independentes para cada membro da família com acessos e níveis e segurança distintos

Deste modo pode evitar a instalação de software não desejado que pode colocar em perigo a integridade do computador e também a do seu filho, evitando que se possa aceder por acidente a contas e serviços não aptos para a sua idade.

3. Instale sempre um software antivírus que inclua o controlo parental

Não há desculpa para não fazê-lo. O Window 10 já o tem, e se tiver outra versão há vários  antivírus grátis disponíveis. Basta que o transfira e o configure com base nas suas necessidades.

4. Acompanhe e aconselhe os seus filhos nos registos e nos logins

É melhor que os ajude e ensine os seus filhos a registarem-se nas redes sociais ou portais que queiram aceder. Garanta que supervisiona toda a informação que consta em cada uma delas

5. Com as redes sociais é melhor educar que proibir

A partir de uma certa idade, o nível de independência das crianças aumenta e por isso o melhor é ensinar-lhes a usarem adequadamente as redes sociais e ajudá-los a que tenham mais consciência dos perigos que podem encontrar nelas: que tipo de fotos pode mostrar, não ativar a geolocalização ou a não aceitar amizade de desconhecidos.

Com estes conselhos básicos, os seus filhos poderão dar os primeiros passos na internet em segurança. Mas não se esqueça que a melhor medida de segurança é a supervisão; com um pouco de esforço é possível respeitar a sua privacidade sem deixá-los à mercê dos vários perigos existentes na internet.

 

Artigo de parceiro Selectra Portugal

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Desenvolvimento infantil Parentalidade

Pais presentes criam filhos independentes e autónomos

Pais presentes criam filhos independentes e autónomos

Tão interessante perceber que o que os pais mais querem é filhos independentes e autónomos. Querem que façam as coisas por eles, que não dependam de ninguém. Querem que não estejam atrasados no desenvolvimento. Que não haja nada de errado quando parece que já deviam ter dado aquele passo ou ter dito aquela palavra.

O foco está todo em forçar a independência. E “forçar” é a palavra-chave aqui, que advém das nossas crenças. Da forma como nos sentimos perante a “dependência” e que nos leva agir de uma forma, por vezes, até inconsciente na relação com as crianças. Se a relação tiver um começo que é a dependência e um fim que é que independência, um fim como sendo um objetivo, o nosso foco está, na maioria das vezes, nessa independência.

E na verdade, famílias, o foco deveria estar nas seguintes perguntas:

O que eu posso ser agora para o meu filho para que ele venha a ser independente de uma forma saudável?

O que é necessário para que ele sinta que tem os recursos todos para ser quem é?

Quando nos focamos apenas no quer ser independente, estamos com toda a nossa atenção no futuro e a forçar o desenvolvimento da criança. Fora do ritmo da criança. É, por exemplo, quando pegamos o bebé pelos braços para ele começar andar, quando ele ainda não demonstrou sinais para o fazer. É o que fazemos quando começamos a forçar as palavras, sem que a criança comece a fazer sons com a voz. Com isto, não significa que o melhor seja não interagir com a criança. A diferença que eu quero reforçar aqui, é o quanto é importante estarmos presentes no agora.

Como?

Observando como estou a sentir-me. Reconhecendo, observando a criança, sendo um canal facilitador para o seu desenvolvimento, como as margens de um rio que vai desaguar no oceano.

Maria Montessori

Maria Montessori tem uma frase que ajuda a perceber esta questão: “ajuda-me a crescer, mas deixa-me ser eu mesmo”. Montessori diz que a criança nasce com um mestre interior. Uma vozinha que lhe diz o que precisa de fazer naquele momento. E essa vozinha, muitas das vezes, devido ao nosso ego, à falta de conhecimento, é lhe dito que não tem espaço para se expressar. É o exemplo da criança que quer subir as escadas e os pais acham extremamente perigoso. Neste caso, é necessário apenas que o adulto esteja a suportar aquilo que a criança quer fazer naquele momento.

O que seria se permitíssemos que a voz da criança se expressasse mais?

Para existir independência da criança, é necessário que haja uma dependência que lhe transmita segurança. Uma base de sustentação, um espaço único de expressão, de liberdade para ser quem ela já é.

A dependência e a independência fazem parte do mesmo círculo. Vivem muito bem uma com a outra. E são necessárias à nossa existência saudável quando nos ajudam a expandir e a crescer.

 

image@ Lorri Lang por Pixabay 

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Educação Parentalidade

Educar é reconhecer positivamente os nossos filhos e não recompensa-los

Não recompense o seu filho pelo bom comportamento. Reconheça-o positivamente

Antes de mais deixem-me explicar porque falo em reconhecer positivamente a criança e não em recompensar.

Não estaria totalmente errado visto que ambos os termos envolvem valorizar e gratificar. No entanto, recompensa está muito mais associado a algo palpável, um prémio, uma remuneração. Reconhecimento é constatar, condecorar e permanece na nossa vida e isso sim, faz a diferença na educação das nossas crianças com e sem necessidades especiais – o reconhecimento!

É tão importante saber reconhecer a criança pelas suas atitudes, conquistas e comportamentos como é importante perceber como agir perante as traquinices ou os comportamentos menos positivos da criança, com o intuito de ajudá-la a melhorar o seu comportamento e a crescer.

As recompensas materiais ou comestíveis são muito frequentes, no entanto, não são de todo as melhores para o desenvolvimento intelectual e emocional da criança:

Recompensas materiais

A longo prazo e como recurso frequente vão-se tornando cada vez menos gratificantes para a criança. Para além disso, fomenta a ideia de que para se sentir bem consigo própria o importante é “ter coisas”. Desta forma, mais dificilmente, aprenderá o valor do afeto, da ajuda mútua e o reconhecimento da importância das relações com os outros.

Recompensas comestíveis

Cria uma dependência do organismo da criança para se sentir bem consigo própria. Assim, para que a criança se sinta o seu cérebro vai pedir-lhe um doce…o que, obviamente, não é bom para a sua saúde!

ATENÇÃO: não digo que um chocolate ou uma prendinha irão fazer mal ao piolho mas se forem um recurso frequente, aí sim, torna-se num problema. Por isso, este tipo de recompensas (sim, aqui utilizo o termo recompensa e não reconhecimento) sugiro que as guardem para grandes momentos: passar de ano letivo, o natal, o aniversário, a chegada de um irmão,  etc…!

Qual a melhor forma de reconhecer o  meu filho promovendo o seu desenvolvimento emocional e intelectual?

O reconhecimento social e emocional são, definitivamente, os melhores: privilegiar, agradecer, felicitar, abraçar

Para nós adultos, talvez seja estranho que uma criança aprenda a dar-se por feliz com este tipo de reconhecimento mas nada é mais valioso para a criança do que sentir-se valorizada pela sua atitude ou comportamento tendo o reconhecimento, principalmente, daqueles que lhe são figuras de referência, como os pais ou os educadores.  Esta forma de reconhecimento motiva, ainda mais, a criança a ter comportamentos positivos de forma espontânea e intencional. Para além disso, desenvolve o sentido de responsabilidade para com os seus deveres e para com os outros,  a auto-estima, a segurança emocional e auto-confiança perante o medo de falhar e a sua autonomia.

As crianças deixam-se tocar pelo coração muito mais do que imaginamos…?

Ficam aqui algumas sugestões de reconhecimentos positivos para as vossas crianças:

Tempo

Dedicar tempo à criança para brincar, ler uma história. Dedicar-se de corpo e alma ao tempo com a criança.

Responsabilidade

Confiar-lhe uma responsabilidade como ajudar a levar o carrinho das compras (todas as crianças adoram empurrá-lo), deixá-lo levar as chaves do carro e abrir o carro, marcar o “ok” na hora do pagamento de multibanco…

Poder de escolha

Dar-lhe um privilégio como escolher o jantar, escolher o filme que a família irá ver no fim-de-semana, escolher o parque a que vão, se a criança foi para o banho sem contestar, deixe-a encher a banheira e dê-lhe um banho de espuma…!

Elogiar

Felicitar a criança dizendo-lhe o que fez bem algo. É importante que ao elogiar refira sempre aquilo que fez bem e não lhe atribua apenas o elogio. Por exemplo: “uau, pintaste tão bem dentro das linhas”, “adoro o teu desenho!”

Agradecer

Agradeça a criança o bom comportamento. Diga-lhe o quão feliz, orgulhoso e agradecido fica por aquela boa ação.

Relembro As crianças deixam-se tocar pelo coração muito mais do que imaginamos… <3 “. É mesmo simples assim…

image@iniciados

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Educação Parentalidade

A arte de imbecilizar crianças. A estupidificação das crianças

A arte de imbecilizar crianças

A arte de perder não é difícil de dominar; há tantas coisas que parecem preenchidas com a intenção de se perderem que a sua perda não é nenhum desastre. Perde algo todos os dias. (…) Depois pratica o perder mais e perder mais rápido: lugares e nomes, até de sítios que desejavas conhecer. Nada disso será um desastre”

O poema de Elizabeth Bishop, One art, deveria ser leitura obrigatória e diária para aqueles pais que se recusam a “perder” os filhos para o mundo. Em vez de acompanhá-los nessa viagem que, à partida, não será desastrosa querem ampliar o tamanho do mundo que controlam.

O mundo em forma de família. O mundo em forma de prisão.

Na arte de imbecilizar crianças, os currículos tiranos, as seleções baseadas em exercícios de mnemónicas e as rotinas escolares pouco significativas concorrem fortemente com o receituário pouco inteligente dos pais.

Três Táticas para imbecilizar as crianças

1 – Proteção excessiva das crianças

Neste sentido a primeira tática para imbecilizar crianças consiste em protegê-las exaustivamente de problemas. Evitar contacto com as verdades dolorosas. A bruxa e a madrasta malvada devem ser banidas tal como o lobo mau. Em cima do piano já não há um copo com veneno, mas um sumo azedo. A morte é apenas uma viagem.

A forma afirmativa, pessoal e direta “Atirei o pau ao gato” deve ser vertida para o mais sóbrio e correto “Não atires o pau ao gato porque isso não se faz”. Corta-se assim o suporte imaginário necessário para que a criança elabore o seu sadismo, bem como o masoquismo social que a rodeia. De facto, a palavra “imbecil” provém do latim baculum, bastão de pastor.  Alguém sem bastão é alguém que deve ser pastoreado pelos outros. Alguém que não fará uso algum do seu bastão para se defender será, obviamente, um fraco e frágil… Sem pau para atirar.

2 – Estupidificação das crianças

A segunda tática para não “perder” os filhos para o mundo consiste na sua estupidificação. Torna-los cretinos. Os cretinos eram crianças que habitavam os vales da Suíça, onde o sal continha pouco iodo. Sem iodo desenvolviam uma deficiência cognitiva associada à disfunção da tireóide. Como já não podiam ser educadas pelos pais, eram transferidas para as comunidades religiosas, daí o termo chrétien (cristão). E assim, fazem os pais que entregam os filhos à escola como se esta tivesse, não apenas de os ensinar, mas também educar, controlar, disciplinar, cuidar e por aí adiante. E assim concorre com os que terceirizam a educação dos filhos.

3 – Isolar as crianças

A terceira tática na arte de não “perder” as crianças para o mundo consiste em mantê-las isoladas, em situação de indivíduo privado ou, como os gregos chamavam, estado de idiotez.  A escola é um obstáculo para o novo espírito do neoliberalismo que advoga que cada um de nós é uma espécie de livre empresa que deve escolher livremente os seus fornecedores e aplicar os seus investimentos segundo os princípios de otimização de resultados.

Esses pais empreendedores sentem-se, segundo a prerrogativa de pagantes e clientes, no direito de elevar os princípios individuais e privados à dignidade da coisa pública.

Educação é um empreendimento público, não é uma associação privada de interesses ampliados da família. Contudo é assim que agem os que querem proteger a criança das normas, das leis e das regras, cuja razão de ser é pública.

A arte de imbecilizar crianças, como se vê, é o contrário do que nos recomendava a poeta americana. Esta arte consiste em reter para nós o que devia ser do mundo, em temer desastres quando o pior desastre já está a acontecer. É uma vida sem bastão, sem sal ou sem via pública. Quando percebemos o quanto dominamos esta arte, geralmente já é tarde demais e os nossos filhos já se foram e da pior maneira possível. De modo mais lento para um mundo que os condenou a uma minoria penal perpétua.

 

Artigo originalmente publicado na edição de Agosto de Mente e Cérebro, http://bit.ly/1ORuiNB, adaptado por Up To Kids®

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 A autonomia não cai do céu aos trambolhões!

Escolha uma situação concreta para aumentar a autonomia do seu filho e garanta, mas garanta mesmo que ele tem sucesso na sua implementação.

“Ele não faz nada, tenho que ser eu a preparar a mochila e depois diz que não coloquei a roupa que ele queria”.

 A autonomia não cai do céu aos trambolhões!

Não é uma questão de tudo ou nada, a criança precisa de autonomia e o pai deve vê-la como um investimento não como uma perda de segurança. Por exemplo, o primeiro motivo para muitos pais não darem autonomia aos filhos é o medo inconsciente de os começarem a ver ter vidas independentes, de perderem o controlo da situação.

Não se esqueça que, quer queira quer não, um dia isso vai acontecer. E se essa autonomia for dada passo a passo com intencionalidade, ela fará parte do crescimento do seu filho e da vossa relação de confiança. Assim, não se tornará num monstro de sete cabeças, nem para si, nem para o seu filho.

Se surgir de uma forma gradual e natural, não só estará a incutir responsabilidade ao seu filho como, quando ele lhe exigir mais autonomia, será assim apenas mais um passo num caminho que já fazem juntos.

Autonomia e confiança têm que andar de braço dado.

Conselho da Semana

Escolha uma situação concreta para aumentar a autonomia do seu filho e garanta, mas garanta mesmo que ele tem sucesso na sua implementação. Comece por coisas tão simples quanto, deixá-lo escolher à noite uma das peças de roupa que usará no dia seguinte. Use a sua criatividade e reforce quando ele for bem sucedido.

 

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Crianças superprotegidas, adultos frágeis. Aos pais helicóptero.

Crianças superprotegidas, adultos frágeis

Muitos pais privam os filhos da possibilidade de enfrentar riscos, tanto físicos como emocionais. Qual é o limite sadio entre a simples supervisão e o controle exagerado das atividades dos filhos?

Retrato dos “pais helicóptero”, e conselhos úteis para não te tornares num deles

Os americanos chamam “helicopter parents”. Em português “pais helicóptero” são pais que controlam constantemente os seus filhos quando brincam, quando interagem com os outros, quando escolhem o que vão vestir de manhã, sempre. Aqueles pais que, se nos olharmos sinceramente ao espelho, teremos uma grande hipótese de vê-los refletidos.

Tornamo-nos tão obcecados pela segurança que, inadvertidamente, privamos nossos filhos da possibilidade de assumir riscos e de sofrer as consequências dos seus atos, quer a nível físico quer emocional”, explicou a psicóloga social Hanna Rosin, autora de um artigo sobre crianças superprotegidas, recentemente publicado na revista The Atlantic.

A psicóloga enfatiza as enormes mudanças que se verificam no decorrer da última geração: “Comportamentos de pais considerados paranóicos nos anos Setenta, tal como acompanhar à escola crianças de 9 anos, ou proibir o jogo à bola nas ruas, hoje constituem a regra. São, por sinal, considerados um sinal de responsabilidade paternal”.

Postura superprotetora

A medida da postura superprotetora a que se chegou pode ser lida naquele espaço reservado por excelência à liberdade que são os jogos e as brincadeiras infantis. Um recente estudo da Universidade da Califórnia (Ucla), por exemplo, certifica que os filhos das famílias de classe média de Los Angeles passam 90% do seu tempo livre trancados em casa, empenhados em atividades como ver televisão, jogar vídeo jogos e usar o computador.

No espaço aberto, os espaços para jogos e brincadeiras reservados às crianças são seguros, coloridos, homogeneizados e previsíveis, e também destituídos de qualquer desafio.

O Parque The Land

Em Wrexham, na região norte do País de Gales, o parque “The Land” é uma exceção à regra.

The Land é um parque é de materiais deitados doados, prontos para serem reciclados.

Nesse espaço, as crianças não precisam de se adequar ao sentido de ordem dos adultos, podem modificar tudo aquilo que quiserem. Não existe um valor monetário atribuído aos materiais, e as crianças podem construir e destruir. A brincadeira que resulta disso é uma criação coletiva, uma co-criação”, explica Claire Griffiths, gerente do The Land.

A instituição acaba de ser premiada entre os melhores parques de diversão do Reino Unido pela Sport and Recreation Alliance. The Land não foi pensado de forma a separar as crianças com base na faixa etária: “Uma das maiores satisfações é ver as crianças chegarem sozinhas e desenvolverem dentro de poucos dias uma verdadeira rede de amigos”, completa Griffiths, coisa que não acontece na imensa maioria dos espaços de brincadeiras nas grandes cidades, que tendem a segmentar e a separar grupos e a não facilitar as trocas.

The Land – New Day Films – Children, Youth, & Families – Anthropology

Seis comportamentos irresistíveis

Essas opções que anulam os riscos não são, na realidade, destituídas de contra indicações. Segundo Ellen Sandseter, professora de educação infantil no Queen Maud University College de Trondheim, na Noruega, as crianças têm uma necessidade sensorial de experimentar o perigo e a excitação que dele deriva. “Não se trata de coisas perigosas em si mesmas, mas sim de experiências que, do ponto de vista das crianças, parecem perigosas”, completa Ellen Sandeter.

Autora do ensaio “As brincadeiras de risco das crianças a partir de um ponto de vista evolutivo: O efeito antifóbico das experiências excitantes”. Sandeter evidencia no ensaio seis comportamentos “arriscados” que exercem grande fascínio sobre nossos filhos, a sua possível função e seu consequente efeito antifóbico. Por exemplo, andar depressa ajuda a desenvolver a percepção espacial e redimensiona o medo de enfrentar as próprias emoções.

Os outros comportamentos irresistíveis são:

  • enfrentar as altitudes;
  • manipular instrumentos;
  • estar perto de forças da natureza, como a água, o fogo ou um precipício;
  • brincar às lutaa;
  • explorar um território por conta própria.

Como escreveu o teórico holandês Johan Huizinga, “a brincadeira serve para muito mais do que brincar, e enfrentar um obstáculo que do ponto de vista da criança parece arriscado e superá-lo, permite às crianças desenvolver a coragem e incrementar o sentimento de segurança e confiança na sua própria capacidade de enfrentar os problemas. “Embora sem querer, pais excessivamente presentes e protetores produzem crianças e adolescentes com muita dificuldade de se perceber a si próprios e de pensar em si mesmos como pessoas autónomas, com características e limites próprios”, observa Francesca Broccoli, psicóloga e psicoterapeuta italiana.

Privar as crianças da possibilidade de enfrentar desafios e correr riscos enquanto brincam pode ter consequências a longo prazo.

As crianças que não puderam fazer experiências, conhecer-se a si mesmas e aos seus próprios limites serão pessoas frágeis e com baixa autoestima. Recordemos, para começar, que ser superprotegido significa ser desvalorizado e não reconhecido como adequado, capaz e competente”, prossegue Broccoli. Essa fragilidade poderá  exprimir-se através de comportamentos de passividade, insegurança, dependência, e também através de fracassos consecutivos, raiva, atitudes desafiadoras e provocadoras e incapacidade de tolerar qualquer frustração.

Capa da revista The Atlantic, com artigo sobre crianças superprotegidas

 

Quando se passa da simples supervisão ao controle, o resultado é algo que não faz bem nem sequer às mães.

Uma pesquisa da University of Mary Washington publicada no Journal of Child and Family Studies, revelou como uma maternidade “intensiva” – feita de estímulos constantes e incapacidade de delegar a supervisão dos filhos – se traduz numa sobrecarga psicológica que impacta sobre a saúde mental das mães.

“A sugestão mais importante para os progenitores é a de confiar nos próprios filho. No fato que não se irão magoar deliberadamente e no fato de que devem experimentar o risco para aprender a superá-lo”, conclui Griffiths.

Artigo de Stefania Medetti, jornal La Repubblica

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Desenvolvimento infantil

Tornar a criança independente

A nossa tarefa principal enquanto pais é conseguir que as nossas crianças se tornem adultos capazes de se desenvencilhar no vasto mundo que existe para além das nossas paredes. Tudo o que lhes fazemos – alimentar, vestir, proteger, mimar, educar,… -, é com esse propósito.

Queremos que elas consigam um trabalho que as sustente, que as façam felizes, que consigam ter a sua própria família (se o quiserem, claro), que se rodeiem de pessoas que lhes queiram bem e que consigam realizar tudo o que se desejam. E começamos esse trabalho, consciente ou inconscientemente, desde que elas são pequenas.

Não é uma tarefa fácil. Requerer, tantas vezes, uma paciência que achamos que não temos. É certamente mais fácil dar a comida à boca da nossa criança do que deixá-la tentar acertar sem entornar tudo.

Mas o mais espantoso é que ela rapidamente será um ás na arte de comer sozinha! E será com um grande orgulho que ela o quererá mostrar a todas as pessoas. Claro que também será com muito orgulho que ela irá querer mostrar o domínio da arte de pintura com marcadores – e aí geralmente a tela escolhida será a parede da sala…

À medida que a criança cresce, mais complexas serão as tarefas a si atribuídas, desde vestir-se, tomar banho sozinha, pôr a mesa, escolher a sua roupa, alimentar os animais de estimação, limpar o pó, pôr a loiça na máquina até ir fazer umas pequenas compras na mercearia da esquina. E deixá-la fazer tudo isso, e errar tantas vezes quantas as necessárias, é prepará-la para ser um adulto saudável. Claro que devemos sempre ter em conta sua idade e maturação e evitar dar-lhe tarefas que a frustrem demasiado ou que a possam pôr em perigo: ninguém espera que uma criança de 6 anos consiga fritar um ovo sem ajuda, da mesma forma que ninguém espera que uma de 16 anos não o consiga fazer.

Continuará a ser mais cómodo, rápido e simples fazer as coisas por elas, especialmente quando estamos atrasados, cansados, irritados, com pressa.

Mas vê-los a crescer de forma responsável e saudável, valerá, certamente, mais esse sacrifício.