Tenho saudades da minha mãe

Tenho saudades da minha mãe. Tantas saudades da minha mãe.

Tenho saudades da minha mãe

Sempre que dizia que gostava tanto do meu pai e que tinha saudades dele, perguntavam-me porque nunca me ouviam dizer o mesmo em relação à minha mãe.

A verdade é que por não viver com o meu pai acabava por verbalizar mais esta falta, este sentimento de saudade. Em relação à minha mãe, como fomos sempre muito próximas (também fisicamente), posso dizer que comecei a sentir verdadeiramente saudades dela desde que saí de casa. E há tanta coisa que parece pequenina, mas que dou mais valor hoje do que alguma vez dei.

Sinto falta de ver a minha mãe todos os dias.

Tenho saudades de quando ela me secava o cabelo, mesmo sendo a coisa que mais detestava no mundo.

Sinto falta de estar debaixo dos lençóis, muito pequenina, e de ela me levar um biberon de Nestum com a tetina cortada para o beber ainda dentro da cama nas manhãs de inverno antes de ir para a escola.

Tenho saudades dos tempos em que nos inscrevemos no mesmo ginásio e fizemos aulas de aeróbica e éramos as duas alminhas mais descoordenadas que se viam a mexer naquela sala – e não nos importávamos nada.

Sinto falta de ir à mercearia do senhor João comprar pastilhas e saber a diferença entre nabiças e espinafres de tantas vezes que a vi a comprá-los lá.

Tenho saudades de estarmos no sofá, ao fim do dia, enroscadinhas a conversar ou em pleno silêncio.

Sinto falta de a minha mãe me perguntar por que é que, com um sofá tão grande, insistia em estar colada a ela.

Tenho saudades de ouvir a campainha tocar e saber que era para descer as escadas e ajudar a trazer os sacos do supermercado para cima.

Sinto falta de estar na cama e chamar “maímmmm!” e pedir um copo de leite com chocolate quentinho, como só ela sabe fazer, para me acalmar o corpo e a mente e poder dormir descansada.

Tenho saudades de poder pousar a minha cabeça no seu colo e a ouvir dizer que “vai correr tudo bem” enquanto me afagava os cabelos.

(Continua a ser a única pessoa que gosto que mexa neles).

Sinto falta de fazer corridas de “golfinhos” no mar, nas férias. E de perder sempre para ela.

Tenho saudades de lhe pedir para me comprar uma bolinha com creme, mesmo sendo de tarde e estando tanto calor e ela me avisar, vezes sem conta, que era preferível comer uma sem creme.

Sinto falta de estar por casa e por isso, a “obrigar” a sair mais cedo do trabalho.

Tenho saudades de conversar com ela na cozinha, enquanto preparava o jantar e eu acabar por não ajudar quase nada porque não parava de falar.

Sinto falta de perguntar o que é que vai ser hoje o jantar (e ouvir como resposta “línguas de perguntador”).

Tenho saudades de acordar a meio da noite e ouvir barulho na cozinha e ir pé ante pé porque sabia que a encontrava, de camisa de noite, à janela a fitar as estrelas.

Sinto falta de quando ela me dizia que com as unhas pintadas daquela cor nem pensar, só para andar em casa.

Tenho saudades de irmos no carro para o Algarve e cantar todas as músicas e ouvi-la a dizer “mas como é que tu conheces isto tudo?”.

Gosto muito do facto de termos uma relação muito telepática, de estarmos constantemente a pensar uma na outra e nos ligarmos sem saber disso. De as minhas dores de cabeça passarem por te falar nelas (mesmo ficando tu com elas – ninguém acredita, mas sabemos que é verdade). Gosto de saber se vale a pena ir ver um filme ao cinema depois de ouvir a tua crítica porque é sempre certeira. E gosto que partilhemos livros. Gosto que faças jardineira nos domingos em que o mano vai almoçar e eu não porque sabes que eu não gosto muito. E gosto de poder dizer, sem hesitar, que és a melhor pessoa que conheço – sem ser para parecer bem, mas com a maior naturalidade do mundo – porque é verdade. Gosto tanto de ti. Gosto de nós.

E tenho saudades tuas, mãe, mesmo falando todos os dias contigo.

Porque sentir falta não é mau e ainda é melhor podermos matar essa saudade quando queremos.

Se me perguntarem o que é preciso para ser uma boa mãe é de ti que vou estar a falar. Sempre.

(E porque o dia da mãe se aproxima, deixo também um grande beijinho à minha “boadrasta” por tudo aquilo que sempre me deu: compreensão, tempo, carinho, paciência, a minha mana linda, amor. Por ter cuidado sempre de mim como se fosse sua. Como só uma boa mãe consegue fazer).

Sou mesmo uma pessoa de sorte – e grata por isso.

Feliz dia da Mãe!

MÃE DE UMA MENINA, É PARA E POR ELA QUE ESCREVE SEMANALMENTE, PASSANDO PARA PALAVRAS OS MAIORES SEGREDOS DO VERBO AMAR.

Autora orgulhosa dos livros Não Tenhas Medo e Conta Comigo, uma parceria Up To Kids com a editora Máquina de Voar, ilustrados por aRita, e de tantas outras palavras escritas carregadas de amor!

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